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No Dia do Autismo, mãe faz desabafo especial sobre condição de filha autista

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Sabrina Cipreste e filha - Dia Internacional de Conscientização do Autismo - Policlínica do Amigo

No Dia Internacional de Conscientização do Autismo,  a Policlínica do Amigo preparou algo especial: entrevistamos a recreadora infantil e professora de História, Sabrina Cipreste. A Sabrina tem uma filha autista, a Isabel (ou Bebel, como gosta de ser chamada), e faz o tratamento dela em uma de nossas unidades. Ela conta como é a convivência da filha com as outras crianças, um pouco de seus desafios como mãe e ajuda a desmistificar algo que, na verdade, não era nem para ser mistificado.

Confira o seu emocionante relato!

Olá a todos da Policlínica do Amigo! Permita-me me apresentar antes de você começar a ler esta entrevista. Me chamo Sabrina, tenho trinta cinco anos sou professora em formação de História, recreadora infantil e, nas horas vagas, explicadora particular para crianças . Sou envolvida com educação desde os 16 anos e ensinar é uma das minhas paixões. Meu anjo se chama Isabel e tem 12 aninhos, mas carinhosamente todos a chamamos de Bel ou  Bebel.

Policlínica do Amigo: Qual é o quadro de sua filha? O que ela possui?

Sabrina Cipreste: A Bel foi diagnosticada com epilepsia de difícil controle aos seis meses de vida, quando teve a primeira convulsão. O autismo e o embotamento afetivo vieram recentemente em nossas vidas, após idas e vindas a psiquiatras, até chegarmos a um diagnostico exato.

PA: O que é normal uma criança autista desenvolver?

SC: O atraso na fala ou ausência dela para mim sempre foi algo que me chamava muito a atenção. A Bel não balbuciava quando bebê e por volta dos três anos só emitia sons. A pediatra que a acompanhava dizia que cada criança tinha o seu tempo, mas em meu interior sempre achei diferente.

PA: Qual comportamento a criança com autismo costuma ter?

SC: A baixa oralidade ou ausência dela, aversão a mudanças de rotina… Bel por exemplo não possui linguagem fluente, repete constantemente uma só palavra e se comunica por gestos, o que é comum também a um autista, além da dificuldade de expressar emoções. O autista também desenvolve atos metódicos, costumam gostar de usar sempre as mesmas roupas, fazer os mesmos caminhos, comer os mesmos alimentos, entre outros.

PA: O que falam por aí e que não é verdade?

SC: Ótima pergunta. A maioria das pessoas acha que o autista é um ser sem sentimentos ou que não liga para os sentimentos dos outros, que são muito “fechados”. Como mãe de uma autista, posso dizer que eles gostam, sim, de carinho, de serem valorizados, de se sentirem amados. A questão é como você aborda o autista para dar e receber esse afeto, pois muitas vezes eles se assustam. Chegar com calma e elogiar às vezes simplesmente o par de sapatos pode arrancar-lhes um sorriso e isso ser o suficiente para eles, como se para eles aquele sorriso já fosse equivalente a um abraço ou beijo.

Autismo não é doença, é um conjunto de características que afeta o desenvolvimento do indivíduo no âmbito comportamental, que dificulta sua capacidade de interação social e adaptação ao meio em que vive. Existem diversos graus de autismo, cada um tem sua particularidade. O meu autista não será como o autista do meu vizinho, por exemplo, pode haver semelhanças, sim, mas cada um terá seu jeito. Entre inúmeros mitos.

 

 

Nas horas vagas,  Sabrina e Isabel pintam quadrinhos como os de cima, que ajudam na coordenação e despertam a imaginação da criança (clique para ampliar). 

PA: Quais são os principais desafios seus enquanto mãe?

SC: Mostrar a sociedade que crianças como a Bel são seres humanos como aquela criança que vai a festinha de aniversário do coleguinha da escola, por exemplo. Desmistificar é a palavra. Inclusive dentro da própria família.

PA: E quais os principais desafios dela enquanto criança?

SC: Inclusão, seja nas brincadeiras da escola, seja nos convites a festas, pequenas coisas do dia a dia. Eu como mãe a levo a todos os lugares, obviamente já tive situações constrangedoras com ela com gritos e algo do tipo, o que é sanado com tratamento, medicação e com muito amor e carinho.

A escola que ela estuda se atenta muito a isso, o que é ótimo, um autista precisa se sentir incluído e acolhido para se sentir seguro.

PA: Como a sua filha lida com carinho e com as outras crianças?

SC: Bel ama crianças, costumo dizer que a turma da escola a enxerga com esse olhar, o olhar do “eu sou como você”. Me lembro de uma vez que a Bel participou do desfile de primavera de mãos dadas com a professora, e a coleguinha dela, sentada ao meu lado, disse aos gritos e pulos de alegria: “Bel amamos você, ser diferente te faz especial!”. Isso me emocionou muito e me emociona até hoje.

PA: Como é a sua rotina de tratamento com ela?

SC: Bel tem consulta bimestral com o neuropediatra e com o psiquiatra que a acompanha a cada quarenta dias, que inclusive é um profissional a quem sou muito grata por sua competência e gentileza.

PA: O que nosso país ainda precisar melhorar na hora de lidar com o autismo?    

SC: Conscientização. O Brasil ainda precisa enxergar o autismo de forma diferente: não como uma doença, não como se nós estivéssemos fadados ao sofrimento enquanto família. São seres que possuem seus talentos, que merecem o devido respeito, seja em uma fila preferencial, seja em um espetáculo teatral. Em todo e qualquer lugar.

É mágica a convivência com eles, a simplicidade deles muitas vezes me encanta. Quando ganham um presente, se importam muitas vezes com a caixa, não com o presente propriamente dito. É tão simples e puro. Eles têm muito a nos ensinar, aprendo com a Bel todos os dias a cada conquista, mesmo que seja mínima. Com ela aprendi que pequenas coisas têm grande significado. Que o nosso país olhe com carinho e veja que o autismo é apenas uma nomenclatura, não uma sentença de fim.

  • Maria

    Reply

    Parabéns a policlínica por essa grande atitude mostrar através dessa mãe que o autismo não é uma doença e que os mesmos são pessoas com capacidades brilhantes.

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